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Atitudes que nos aproximam de nosso melhor

Fátima Fontes 01/12/2017 COMPORTAMENTO
Atitudes que nos aproximam de nosso melhor
Fonte: imagem Youtube
“O Som e a Sílaba”: peça traz um banho de atitudes repletas de generosidade e amor

Introdução

“Atitude é o modo como o homem vive e se mantém no mundo, modo que se realiza no sentimento e na linguagem espontânea”.
 (Marcelo Perine, no capítulo “A sabedoria é uma Atitude”, do livro: Vida , Vício e Virtude, organizado por Adauto Novaes. São Paulo: Editora Senac São Paulo, Edições SESC São Paulo 2009, p.95).

Ando mais alegre do que o habitual, e alegria para mim vocês já sabem, passa longe de ser uma alegria de “hiena”, superficial e descomprometida com o sofrimento ético-político que também cerca a nossa vida com o outro.

Trata-se de uma alegria engajada e produzida na relação interpessoal, que aumenta a potência de ação de quem a experimenta, como conceitua o filósofo do século XVII Baruch Espinosa. E, claro, entrar nesse estado de maior alegria, deveu-se ao privilégio de ter uma atenção permanente pelo que me cerca e por haver constatado atitudes que muito alegraram meu espírito e vida.

A primeira atitude que eliciou o incremento de minha alegria foi e ainda está sendo acompanhar o persistente processo de busca pelo submarino argentino o ARA San Juan, desaparecido desde o dia 15 de Novembro de 2017.

O segundo mote que aumentou minha alegria veio pelas mãos da arte, mais especialmente pelas mãos e sensibilidade de um autor/diretor o Miguel Falabella e sua belíssima peça “O Som e a Sílaba”, que foi encenada, com muita competência para o público paulistano nos meses de outubro e novembro deste ano.

As atitudes de generosidade e compaixão que acompanham tanto o resgate do submarino argentino quanto o belo enredo da peça “O Som e a Sílaba” serão, portanto o fio condutor desta reflexão, e desejo que elas lhes alegrem, tanto quanto me alegraram, sobretudo em tempos em que as tristezas e angústias parecem dominar boa parte das relações interpessoais atuais.
 
Escolhendo ajudar ao invés de matar

Associamos, com justa razão, as Forças Armadas, seja ela qual for a estados de guerra ou ameaça, e em poucos momentos à proteção territorial do Estado-Nação que elas representam.

Pois eis que de forma, para mim, e para os críticos de plantão, absolutamente inusitada, em tempos de “ameaça de uma terceira guerra mundial”, surge o que está sendo considerada a maior mobilização da história naval da humanidade: 14 países ofereceram o que de mais desenvolvido têm desde equipamentos até seus militares treinados em missões de alta complexidade, para ajudar a Argentina a localizar e resgatar seu submarino desaparecido, com uma tripulação de 44 pessoas.

Ao me deparar com esta atitude tão generosa de todos esses países, senti reavivar em mim a chama da esperança de que não perdemos, nem perderemos a nossa capacidade humana de amar e de nos solidarizarmos com o que sofre.

E bem mais do que uma simples declaração de cada governante de que se solidarizava com a situação e que se somava aos que intercedem por um bom desfecho, esses representantes governamentais, militares e diplomáticos estenderam a mão e concretizaram a sua ajuda.

Tivemos e estamos acompanhando uma prova concreta de que ajudar é possível, é só querer.  E estabelecendo um bom paralelo entre atitudes macrossociais como essas e as nossas microssocialidades cotidianas, poderemos pensar que precisamos “sacudir o pó” que cobre nossa generosidade e compaixão, por esses que estão ao alcance de nossa mão: seja um cônjuge, um filho, um pai, uma mãe, um funcionário, enfim, pelas pessoas que diariamente necessitam de nossa gentileza, afeição e ajuda.

Estendendo a mão ao que pede

Quero agora, lhes contar, um pouco do banho de atitudes de generosidade e amorosidade que sobre mim caiu ao assistir a peça “O Som e a Sílaba”.

A peça, escrita e dirigida por Miguel Falabella conta a história de Sarah Leighton, uma mulher portadora de autismo funcional, uma “savant”, com algumas habilidades específicas, como a música, e sua relação com a professora de canto Leonor Delis.

A história encenada nos conta da aproximação dos “sofrimentos” dessas duas mulheres: Sarah, que após perder os pais, buscava ajuda para dar algum sentido à sua vida, que contava aquela altura com muitas limitações, sobretudo, no mundo das relações interpessoais e a professora Leonor, que também recém-saída de um difícil divórcio, também se encontrava num momento de ocaso profissional.

E ao aceitar o convite de ajudar Sarah a alcançar a dignidade pessoal a partir de um trabalho, Leonor estende a mão e o coração à sua aluna, e o resultado desse encontro modifica, para melhor, a vida de ambas.

Uma vez mais, estabeleço um paralelo entre a situação acima e nossos mundos relacionais. Precisamos, cada vez mais, nos mirar no exemplo das atitudes dessas duas personagens.

Como Sarah, precisamos reafirmar nossa competência, mesmo que ela seja cercada de restrições e impedimentos, mas para isso precisamos ultrapassar a barreira de nossos complexos e pedir ajuda a quem nos possa auxiliar.

Tal qual Leonor, urge que vençamos o imobilismo trazido por nossas tragédias pessoais, dificuldades e limitações e resolvamos agir, num primeiro momento, motivados pela necessidade do “outro”, que como nós, também se encontra mergulhado em dores. A partir dessa generosa atitude de ultrapassar a nossa própria fronteira de dor, descobriremos que também nos expandimos e voltamos a nos esperançar.

E para terminar...

Desejo tê-los contagiado com a alegria da generosidade e compaixão, e para endossar esse desejo, ofereço-lhes uma das canções cantadas na peça “O Som e a Sílaba”, que se intitula “Je veux vivre dans ce rêve”, que foi cantada pela personagem Sarah, em momento em que já se reconhecia capaz, e cujo título traduzido significa: “Eu quero viver neste sonho”, esse grande desejo que nos move a cada manhã.

Publicidade - o texto continua abaixo.



Clique aqui para assistir a esse trecho da peça

E segue a letra da canção e sua tradução.

Je Veux Vivre Dans Ce Rêve
Do filme “Romeu e Julieta”
Je veux vivre
Dans ce rêve qui m'enivre
Ce jour encore,
Douce flamme

Je te garde dans mon âme
Comme un trésor!
Je veux vivre, etc.
Cette ivresse de jeunesse
Ne dure, hêlas! qu'un jour!
Puis vient l'heure
Où l'on pleure.

Loin de l'hiver morose
Laisse moi, laisse moi sommeiller
Et respirer la rose,
Avant de l'effeuiller.

Ah! - Ah! - Ah!
Douce flamme!
Reste dans mon âme
Comme un doux trésor
Longtemps encore.
Ah! - Comme un trésor
Longtemps encore.

Eu quero viver neste sonho

Eu quero viver
Neste sonho que me deixou embriagada
Este dia novamente,
Chama doce

Eu mantenho você na minha alma
Como um tesouro!
Eu quero viver,
Essa intoxicação juvenil
Não dure, infelizmente, mais que um dia!
Então vem o tempo
Onde nós choramos.

Longe do inverno sombrio
Deixe-me, deixe-me dormir
E respirar a rosa,
Antes de tirá-la.

Ah! - Ah! - Ah!
Chama doce!
Fique na minha alma
Como um doce tesouro
Ainda longo tempo.
Ah! - Como um tesouro
Ainda longo tempo.




TAGS :

    atitudes, amor, generosidade, som, sílaba, comportamento, psicologia

Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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