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As relações familiares e o abuso do celular

Ceres Alves Araujo 21/03/2019 PSICOLOGIA
As relações familiares e o abuso do celular
Fonte: imagem Pixabay
Está se criando uma geração de pessoas que dará privilégio ao mundo virtual em detrimento das relações interpessoais presenciais

Por Ceres Alves de Araujo

Vivemos na era da hiperconectividade. As novas tecnologias da comunicação e da informação são forças ambientais que estão afetando diretamente as condutas interativas e sociais do ser humano. Afetam também a concepção de si mesmo e da própria realidade, pois ofuscam  a distinção entre realidade e virtualidade.

As redes eletrônicas são instrumentos de informação, instrumentos de construção de conhecimento, instrumentos de comunicação e instrumentos de lazer. Em muitos sentidos a vida ficou mais fácil e mais prazerosa.

Mas, é preciso se perguntar: que tipo de mundo se está criando? Estão sendo construídas as circunstâncias que aumentam as possibilidades de crescimento para a humanidade em termos de liberdade, de sociabilidade, de inteligência, de criatividade, de bem-estar, de autorregulação...? Ou se está construindo o contrário?

Como se constitui a família de hoje  

Mais especificamente, pode-se perguntar: como está se constituindo a família atualmente, quando seus membros permanecem hiperconectados praticamente o tempo todo? A rapidez da comunicação via rede se tornou tranquilizadora para pais e para filhos, pois todos permanecem ligados.  O tomar conta da era hiperconectada se tornou mais fácil, pois é possível localizar o filho e seguir seus deslocamentos com facilidade. Para as crianças a possibilidade de chamar os pais na hora que precisam pode garantir mais segurança.  Há muitos aspectos positivos nessa forma de interação. Mas, o que se perde?
 
Já se tornou comum observar famílias em clubes, parques, ao redor da mesa de refeição, isto é em todos os lugares onde se agrupam, onde cada um permanece ligado ao seu celular. Os tópicos de conversa, por vezes, são motivados pelo que eventualmente um familiar descobre e comenta. Mas, mesmo assim, não há garantia de que ele seja escutado, dada o foco de atenção que cada um sustenta no próprio aparelho. O celular parece ter virado um prolongamento funcional da mão, no qual os olhos ficam pregados e os ouvidos interconectados.

Modificação da forma de cuidar de bebês

Em relação às famílias, cabe aqui um tópico importante a ser discutido: a modificação da forma de cuidar de bebês e crianças na primeiríssima infância.  Sabe-se a importância da relação de apego que precisa ser estabelecida entre o ser humano nos seus primeiros tempos de vida e seu cuidador. Essa relação é constitutiva para o desenvolvimento mental do novo ser e ela se faz nas relações interpessoais presenciais, nas trocas olho a olho.  

É preocupante a frequência com a qual hoje observamos bebês em seus carrinhos ou criancinhas sentadas ao lado de mães e babás, estando essas absorvidas em seus celulares. Muitas vezes as crianças ficam olhando o vazio, outras vezes buscam puxar o adulto pelas roupas para conseguirem um pouco de atenção. Algumas dessas pessoinhas crescem com a mania de pegar mesmo no rosto do outro e virarem para si para terem a garantia de poderem ser realmente o alvo de atenção. A comunicação pelo olhar, base para as trocas afetivas está se perdendo...

Fica incongruente a queixa de muitos pais em relação ao tempo que as crianças gastam presas aos eletrônicos. Esse foi e está sendo o modelo dado a elas.  Está se criando, sem dúvida, uma geração de pessoas que dará privilégio ao mundo virtual em detrimento das relações interpessoais presenciais, pois esse é o modelo vigente. Está se aprendendo a viver assim e isso se torna para elas o padrão. Como as redes neurais se estruturam em função das relações interpessoais concretas, como ficará o cérebro das pessoas dessa nova geração? 




TAGS :

    celular, filhos, família, psicologia

Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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