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Entender o massacre na escola em Suzano é possível?

Regina Wielenska 21/03/2019 PSICOLOGIA
Entender o massacre na escola em Suzano é possível?
Fonte: imagem Jormal 'O Tempo'
Fenômenos complexos raramente podem ser entendidos à luz de uma só variável

Por Regina Wielenska

Mal recuperados do choque imenso que as inúmeras mortes produziram em todos nós, a imprensa passou a consultar profissionais de várias áreas em busca do entendimento das razões que levaram os jovens a planejarem e pôr   em prática o ataque brutal.

Alguns mencionam que um dos rapazes era filho de uma mãe dependente química, mas é quase impossível mensurar os efeitos específicos desse fator. As drogas foram consumidas na gravidez? Em caso positivo, quais drogas? A criança nasceu bem? Ou daria para supor uma tendência genética para comportamentos impulsivos? Não é parcimonioso atribuir status de causalidade a tais fatores, sem evidências claras.

Ser criado pelos avós vulnerabilizaria um dos jovens? Pelo contrário, muitas vezes isso até salvaria um menino dos riscos advindos de se expor a eventuais comportamentos parentais negligentes ou violentos, ser criado por avós propiciaria um ambiente amoroso e estruturado. Sim, reconheço como possível a afirmação de que também há nesse vasto mundo avós inadequados, tanto quanto pais.

Games violentos geram comportamentos violentos?

Ser exposto por anos a fio a uma comunidade que joga online games violentos poderia favorecer comportamentos como o do massacre? Há lacunas nas pesquisas, não temos certeza. Há muitos jovens que participam desses embates online, dirigem sua agressividade para a virtualidade e levam uma vida tranquila. Mas nem todos, alguns partem do plano virtual para a realidade e aí as consequências danosas são imprevisíveis.

Ter acne ou dispor de poucas habilidades sociais, como a empatia, podem expor um jovem a experiências de rejeição, hostilidade ou isolamento social. Sentir-se não pertencendo a um grupo, como os de colegas de escola, pode ser muito tóxico a um jovem. Mas sabemos também que muita gente sofreu nas mãos de seus pares etários e depois deu a volta por cima, construiu relações afetivas de qualidade. Sofrer bullying ou ser socialmente invisível é certamente doloroso. Mas isso em si provavelmente não seria o suficiente para explicar a violência.

Perder uma avó ou outro parente próximo pode ser um estressor importante. Mas até que ponto isso afetaria um deles não sabemos com exatidão. Também não conseguimos estimar o impacto que uma demissão do trabalho na empresa de um tio poderia impactar um rapaz... Sabemos quase nada, na verdade.

Quem navega na deep web?

Quem chega ao ponto de navegar habitualmente pelos horrores da deep web, participando de grupos com discurso de ódio e apoio a atos de extrema violência, já deve ter se perdido de si próprio e da vida social há muito tempo. São jovens e adultos que vivem e defendem uma inversão de valores, em forte oposição a uma cultura de paz e justiça social.

Fenômenos complexos raramente podem ser entendidos à luz de uma só variável, nos parágrafos acima listei apenas alguns dos fatores sinalizados por jornalistas e especialistas como prováveis contribuições para a determinação do comportamento extremamente violento contra várias pessoas e, por fim, contra eles mesmos.
Um trabalho extenso de reconstrução dos antecedentes dos ataques vai revelar ainda mais fatores, como contribuições de terceiros ou outros aspectos. Para ser franca, duvido que consigamos estimar com clareza a totalidade das variáveis participantes e o exato peso de cada uma para a determinação de uma ação complexa, dramática, coordenada por ao menos dois jovens sem perspectiva alguma acerca da própria existência.    




TAGS :

    massacre suzano, violência, games, psicologia

Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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